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GASTRONOMIA COMO PRODUTO TURÍSTICO texto do CONVERSANDO COM LUIS ANTONIO GONÇALVES
por Elizabeth Horta Corrêa em
31/07/2005
A Humanidade e o Alimento: Desde os primórdios da humanidade a crescente necessidade de encontrar produtos alimentares que satisfizessem a fome e saciasse as carências por determinados nutrientes, mesmo que de forma involuntária, fez com que o homem se locomovesse por muitos lugares e mudasse seus hábitos constantemente. Nas várias fases da evolução humana, sabe-se, existe uma evolução nas formas de alimentação. Inicialmente, cerca de 3,5 milhões de anos, surgiram os primeiros mamíferos semelhantes ao homem e com uma dieta basicamente vegetariana, posteriormente, carnívora, incluindo o canibalismo. Os homens eram nômades, incapazes de permanecer num mesmo lugar por períodos muito longos. Esta permanência durava enquanto houvesse alimento nativo suficiente para alimentá-los. Com as transições de dietas e lugares, algumas descobertas importantes são feitas: armas para caça, equipamentos para pesca, implementos de cultivo da terra, utensílios para preparação dos alimentos e principalmente o fogo, que viria modificar, substancialmente, a qualidade dos alimentos ingeridos pelo homem. A partir daí começam a assar as carnes de pesca e caça, os grãos passam a ser torrados, vegetais cozidos... A Gastronomia: "A arte do bem comer e do saber escolher a melhor bebida para acompanhar a refeição." Maria Lúcia Gomensoro – Pequeno Dicionário de Gastronomia. As pessoas se alimentam de acordo com a sociedade, a comunidade a que faz parte. O ato de comer está intrinsecamente ligado às nossas memórias afetivas. Todo mundo tem pelo menos um ou mais pratos e ingredientes que não consegue desatar de um lugar ou uma memória, uma viagem, uma ocasião especial. Todas as suas influências, suas transformações, os domínios dos costumes e técnicas francesas, italianas que durante boa parte do tempo ditaram as regras de sabores e apresentações. Influenciaram países e chefs renomados em todo o mundo. Hoje, grandes centros procuram de forma frenética trazer de outros países suas tradições culinárias, aspectos que mais representem suas tradições, para os restaurantes que disputam ferozmente espaços e notoriedade de públicos cada vez mais interessados em conhecer e degustar sabores de outras civilizações. Os chefs cada vez mais se empenham em aperfeiçoar e adaptar gostos e apresentações, porém, não está completo, pois só nos lugares de origem é que conseguimos sentir a verdadeira satisfação de comer os pratos populares destas regiões. O Século XX e os Alimentos: Em 1900, André Michelin teve a idéia de publicar um manual de endereços de hotéis, restaurantes (Guide Michelin). "As viagens de automóvel e os guias turísticos favoreceram a descoberta das cozinhas regionais, a descentralização dos modelos culinários e a associação do turismo à gastronomia. A visita de um castelo, de uma catedral ou de um museu será combinada facilmente com a descoberta de pratos e de vinhos regionais." Ariovaldo Franco – De Caçador a Gourmet. Com o crescente numero de restaurantes servindo fast food, podemos afirmar que algumas tradições foram esquecidas, as pessoas não têm mais os mesmos prazeres à mesa. Hoje as pessoas, mais apressadas, apenas se alimentam, quando o ideal, o tradicional é degustar e extasiar-se com um dos mais sublimes prazeres. As tendências de alimentação diet/light, os restaurantes delivery, enfim quantas tendências concorrem com a tradição. A Gastronomia Brasileira: A cultura popular brasileira tem criado coisas especiais em todas as áreas, mas, principalmente, na culinária. Pratos populares como a feijoada, arroz tropeiro, vatapá e tutu à mineira são iguarias apreciadas dentro e fora do País. De Sul a Norte o Brasil possui uma gastronomia variada, complexa nas variedades e simples em seus componentes. Do churrasco dos pampas ao pato no tucupi do Amapá, o nosso país é grandioso também em sua culinária, fator que estimula viagens, atrai historiadores e pesquisadores e, principalmente, aqueles que apreciam a boa comida. Qual de nós não experimentou uma boa mesa mineira, repleta de quitutes maravilhosos, fartura é a marca registrada dessa gente simples, porém, mágicos na arte de cozinhar. As cozinhas paulista e carioca não podemos dizer que são típicas. Quantas influências tiveram de tantos imigrantes que contribuíram de forma magnífica com sua constituição. Aliás, esta influência, por que não dizer, tornaram ainda mais fabulosa a cozinha "brasileira"? A maior influência sobre a culinária brasileira é a portuguesa (fritura, sal, doce, refogados, cozidos, sopas). É claro que outras culinárias influenciaram, porém, a que marcou e predominou, que definiu nossa forma de cozinhar é a cozinha portuguesa. "O hóspede quase sempre ignorará o cardápio do povo que o cerca se não possuir curiosidade para procurá-lo. Faz-se volta ao mundo comendo-se o mesmo bife com purê de batatas." Luís Câmara Cascudo – História da Alimentação no Brasil. A Gastronomia como Produto Turístico: A gastronomia é um dos aspectos culturais de um povo. O Turismo Gastronômico está diretamente ligado ao prazer e à sensação de saciedade adquirida através da comida e da viagem. Algumas regiões aproveitam-se de sua cultura, história e tradições e se divulgam através da gastronomia, lançando um produto turístico distinto que também é parte integrante do turismo cultural como os roteiros gastronômicos. O turismo gastronômico contribui com a fixação das pessoas em sua região de origem, uma vez que estas não mais precisam buscar fora dali trabalho para seu sustento, diminuindo o êxodo e a conseqüente superpopulação dos grandes centros. Com o turismo gastronômico as empresas de alimentação têm seu desenvolvimento favorecido, aumenta a demanda pela culinária regional local, e com isso o desenvolvimento das cidades, no que diz respeito à oferta de emprego, melhoria na arrecadação e conseqüentemente, melhoria na qualidade de vida dos moradores. Para que haja um melhor aproveitamento destes recursos, órgãos especializados em desenvolvimento turístico, escolas, governo e população devem se organizar de forma tornar justa a exploração dos recursos locais, evitando especulação e enriquecimento de poucos com a exploração irregular dos recursos humanos mal informados. O turismo gastronômico está intimamente integrado ao turismo cultural, histórico, pois a tradição de cada povo na sua forma de viver, de se alimentar e sobreviver com a comercialização destes produtos. Espera-se com a comercialização destes produtos gerar renda estimulando um processo de desenvolvimento humano orientado a profissionalizar as pessoas, contribuindo de forma a nutrir raízes culturais promovendo a história e memória presentes na realidade local. O resultado refletirá positivamente nos impactos provocados pelo turismo. O turismo gastronômico não está vinculado, necessariamente, à outra modalidade de turismo, ele é autônomo, haja vista que centros importantes como São Paulo (Capital), investe significativamente neste conceito, atraindo pessoas de diversas partes apenas com este apelo singular. O turista que procura este tipo de turismo não está preocupado, necessariamente, com o lugar onde terá de se hospedar, se em casas particulares, ou em hospedagens mais modestas, pois não é este o principal objetivo, este é apenas um coadjuvante neste cenário. Inúmeras são as ofertas e das mais variadas categorias e modalidades de produtos gastronômicos explorados na cidade de São Paulo (Capital Gastronômica do País). Não apenas a capital do estado, mas também cidades do interior brasileiroexploram de forma profissional e organizada o turismo gastronômico, com suas particularidades e peculiaridades culinárias que encantam cada vez mais turistas de todas as origens. Por mais que procuremos estas particularidades em outros lugares, sempre faltará a interação do ambiente, a essência que complementa e caracteriza a produção culinária do lugar. A principal preocupação da arte de cozinhar é proporcionar o máximo de prazer a quem come. Além disso, o ato de comer tem um sentido simbólico para o homem. Toda cozinha tem a marca do passado, da história, da sociedade, do povo e da nação à qual pertence. Cozinhar é uma ação cultural que nos liga sempre ao que fomos, somos e seremos e, também, com o que produzimos, cremos, projetamos e sonhamos. |